Muitas vezes estamos tão entristecidos com a vida que nada nos agrada. Por mais que tentemos ver a beleza das coisas, sempre encontramos algo que nos mostra a sua feiúra.
Certa vez estava lendo Tolstói e uma de suas frases se alojou em minha mente:
"Há quem passe por um bosque e só veja lenha para a fogueira".
Nada mais triste que do que uma pessoa que perde a sensibilidade para enxergar a vida. Não, essa pessoa não é cega. Ela não sofre de nenhuma patologia que tenha atingido sua capacidade visual. Seu problema não está nos olhos, mas sim no coração.
Para essas pessoas a beleza das flores é suprimida pela dor de seus espinhos. O passeio pela noite estrelada, pelo medo de ser assaltado. O brilho do sol, pela intensidade do calor que queima a pele.
Nada, absolutamente nada parece estar bem. Aos seus olhos o mundo conspira contra ela. E ela se tornou como que um cavaleiro lutando contra seus próprios moinhos constante e cotidianamente. Moinhos que sempre parecem maiores do que realmente são. Moinhos que se apresentam rodando suas pás com tanta força e violência que provocam sustos e afugentam os sonhos.
De que adiantam o bosque, as flores, a noite estrelada, o sol, se não sabemos olhar com o coração?
De que vale a vida se não é possível olhá-la com desejo, paixão, energia e beleza?
Qual seria o sentido da própria existência se não podemos encontrar em nós mesmos a beleza da vida? Penso que muitas vezes somos parecidos com aquelas pessoas que apenas passam pela vida, mas não deixam o perfume da vida passar por elas.
Talvez achem que a vida é muito pesada. Demasiadamente enfadonha. Que a vida não é suficientemente prazerosa. Profundamente triste. Que o amanhecer de um novo dia apenas repetirá a triste sina do dia anterior. Talvez tenham perdido a condição primeira e possível de todos nós: de olhar para a lenha e ver nela uma floresta.
"Ainda que aos seus próprios olhos você se pareça árido em relação à vida, olhe para a aridez, e contemple o leito de um rio, olhe para o que não é e vislumbre o que poderia ser, contemple a primavera que está por acontecer em sua vida."
Há duas maneiras de olhar a vida: a primeira delas, olhar o bosque e ver somente lenha; a segunda, observar a lenha e contemplar os primeiros brotos surgindo, de tal forma que a primavera não poderá jamais ser interrompida.